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Ontem foi assim, na escola D. Domingos Jardo em Mira Sintra numa formação de pais sobre dificuldades de aprendizagem. Com sala cheia e um público muito participativo, debatemos e esclarecemos os pais sobre quais são as dificuldades de aprendizagem, que preocupações a ter em conta, e como agir perante as dificuldades.

 

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Cada vez mais, pais e professores manifestam preocupações relativamente ao problema da falta de atenção das crianças na sala de aula; e muitas razões poderiam ser enunciadas, para justificar esta questão: a criança está cansada; a criança tem por hábito deitar-se tarde; a criança não gosta da matéria; entre muitas outras possíveis. O facto de um aluno não estar atento na sala de aula não significa necessariamente que apresente Distúrbio do Défice de Atenção.

Segundo estudos recentes, aproximadamente 20% das crianças com défice de atenção tem dificuldades de aprendizagem e cerca de 90% tem problemas nos resultados escolares. Perto de 60% das crianças mais pequenas manifestam este tipo de problema através de birras e a maioria das crianças mais velhas tem uma baixa tolerância à frustração. Embora a impulsividade e a hiperactividade tenham tendência a diminuir com a idade, a falta de atenção e os sintomas associados podem permanecer até à idade adulta.

Ao longo dos tempos, foram surgindo vários adjectivos para descrever os mesmos sinais e sintomas do Distúrbio do Défice de Atenção, como por exemplo, “Disfunção cerebral mínima”, “Síndroma da criança hiperactiva”, entre outros. Em 1968 a American Psychiatric Association (APA) publicou o DSM-III, onde surge o termo “Reacção hipercinética da infância”, e que é substituído posteriormente, em 1980, por “Distúrbio do Défice de Atenção”, quando se reconhece que os problemas de atenção e impulsividade persistem na vida adulta.

Antes de mais, parece-me fundamental referir que uma criança com Défice de atenção não tem obrigatoriamente de ter hiperactividade. Em 1994 a APA classificou o DDA em 3 sub-tipos:

Défice de atenção predominantemente desatento

– Défice de atenção predominantemente hiperactivo-impulsivo

– Défice de atenção predominantemente combinado

Desta forma, e segundo o Diagnostic and Statistical Manual of Mental Disorders (DSM-IV), para ser diagnosticado o subtipo Predominantemente Desatento, o indivíduo tem de apresentar seis ou mais dos seguintes sintomas de falta de atenção, durante pelo menos seis meses (chegando ao ponto de ser prejudicial ao seu desenvolvimento):

  1. Com frequência deixa de prestar atenção a detalhes ou comete erros típicos de descuido em actividades escolares, de trabalho ou em outras atividades;
  2. Com frequência apresenta dificuldade em manter a atenção em tarefas ou atividades lúdicas;
  3. Com frequência parece não “dar ouvidos” quando lhe dirigem a palavra;
  4. Com frequência não segue instruções e não termina tarefas escolares, pequenas tarefas ou deveres profissionais (o que não se deve a comportamentos de oposição ou incapacidade para compreender instruções);
  5. Com frequência tem dificuldade na organização de tarefas ou actividades;
  6. Com frequência evita, não gosta ou recusa envolver-se em tarefas que exigem esforço mental constante;
  7. Com frequência perde materiais necessários para as tarefas e actividades (como brinquedos, lápis, livros, etc);
  8. Distrai-se facilmente com estímulos alheios à tarefa que está a realizar;
  9. Com frequência esquece actividades do dia-a-dia.

 

De um modo geral, uma criança que apresente défice de atenção, tem mais dificuldade em concentrar-se em tarefas que exijam esforço mental, quando comparado com a maioria das crianças da mesma idade. A criança poderá até estar concentrada enquanto faz um determinado jogo (que seja do seu agrado), mas bastará um pequeno estímulo externo para “desligar”.

Para que haja DDA é necessário que a criança seja incapaz de manter a atenção nas tarefas que exigem esforço mental em diferentes contextos. Se na sala de aula está distraída, mas em casa consegue manter-se atenta, por exemplo, quando está a fazer os trabalhos de casa, então provavelmente poderão existir outros factores no contexto da sala de aula que dificultam a concentração. Outro factor a ter em conta é que só se poderá falar em DDA, caso não existam outros factores de ordem emocional que condicionem o nível de atenção.

Os alunos com défice de atenção necessitam de organização, de estrutura e de repetições frequentes. Estabelecer regras e colocá-las em locais estratégicos, de fácil consulta, facilita ao aluno saber o que deve fazer e o que é esperado dele, o que lhe transmite segurança.

Termino com algumas sugestões que poderão ser úteis para ajudar uma criança com DDA:

na sala de aula, sentar o aluno perto do professor, pode diminuir a frequência de situações de distracção; do mesmo modo, é benéfico sentar o aluno perto de colegas “bem comportados”, que funcionam como modelos para o estimular;

– expor as regras “da sala” de forma visível e apelativa, após terem sido trabalhadas em grupo. Estas regras devem estar escritas de forma positiva, e deve recorrer-se a elas sempre que uma seja desrespeitada; as crianças com DDA necessitam de as ouvir com frequência, por isso repita-as e fale acerca delas;

– dar feedbacks de forma construtiva, promove a ocorrência de comportamentos desejaveis, facilitando ao aluno perceber se está a atingir os objectivos esperados;

– estabelecer tarefas de conclusão rápida, aumentando gradualmente o grau de complexidade e duração das mesmas, fomentando assim a capacidade de organização;

– ajudar a criança na resolução de problemas, permitindo que ela possa identificar o problema, encontrar diversas soluções e escolher a mais adequada, ponderando as consequências da escolha que tomou, aumentando a sua tolerância à frustração;

em casa, ajudar a criança a criar uma “agenda” onde deve anotar todas as actividades/tarefas que tem para fazer no dia seguinte e, no próprio dia, conferir tudo com ela, antes de sair de casa;

– estabelecer horários fixos e regulares de repouso, de actividades físicas e de lazer;

– corrigir sempre pela positiva, ao invés da negativa, ou seja, dizer “Faz isto assim….” em vez de “Não faças isso”; desta forma é mais fácil para a criança interiorizar o que deve fazer;

– reestruturar a sua forma de pensar e de agir, quando confrontada com situações que podem prejudicar o seu funcionamento; perguntas do género “Sabes o que fizeste? ou “Como é que achas que podias ter feito de forma diferente?” ajudam a promover a auto-observação.