Ontem a luz do dia desfazia-se à beira rio e o vislumbre do entardecer engoliu toda a minha percepção daquele instante. A frescura da aragem do crepúsculo, o paladar do copo terminado, o aroma ribeirinho da água doce salgada pelo mar ou o som longínquo do navio que cruzava o estuário, vestiam em simultâneo a minha experiência daquele final de dia, mas nenhum dos outros sentidos me saberia dar uma memória tão inteira, ou antes, tão minuciosa daquele momento.

 

 

Muitos de nós, se dados a escolher um único sentido, optaríamos pela visão, porque acreditamos que seria este, se omisso, que mais alteraria a nossa experiência perceptiva. É por isso tão importante a avaliação precoce e rotineira da visão da criança pelo médico assistente; pretendendo-se identificar atempadamente anomalias visuais severas que se não forem tratadas nos primeiros meses ou anos de vida, poderão levar ao desenvolvimento de cegueira.

 

Ao nascermos o Sistema Visual, constituído pelos olhos, nervos ópticos e estruturas cerebrais do córtex visual, é imaturo. O seu amadurecimento começa durante as primeiras semanas de vida e termina por volta dos 5 anos de idade, quando a acuidade visual da criança se assemelha à do adulto saudável. A fóvea, por exemplo, a porção mais sensível da retina só atinge a sua maturidade aos 4 anos de idade. Este período de maturação é importantíssimo, porque é durante o qual o sistema visual é mais afectado por estímulos externos, capazes de influenciar o desenvolvimento da visão normal.

 

Os olhos são no fundo duas câmaras que recebem estímulos visuais, ou seja, são os órgãos responsáveis pela captação da luz e da sua transformação em impulsos nervosos que depois são processados na região occipital do nosso cérebro, naquilo que designamos o córtex visual. É no olho que se inicia o processo visual, mas cabe ao cérebro interpretar o que significam as luzes captadas, discernindo se serão cores, formas, movimento, analisando distâncias e intensidades. Ver é uma actividade do nosso cérebro, que pressupõe bem mais do que a simples recepção de estímulos luminosos. Aliada à recolha de informação visual o nosso cérebro é capaz de a processar, de a sintetizar, analisando e interpretando essa informação ao conjugá-la com as nossas memórias.

 

A par e passo do desenvolvimento da visão desenvolvem-se o comportamento e o desempenho visual, que ao médico exigirá uma adaptação do exame oftálmico à idade da criança. A capacidade de fixação visual num objecto é um bom exemplo disto. Ocorre pouco depois do nascimento, sendo o bebé capaz de fixar o olhar em algo, nomeadamente o rosto humano, para o qual está geneticamente programado. Mas a acuidade do Recém Nascido, ou seja, o grau de aptidão do seu olho para discriminar os detalhes espaciais, estima-se 20 vezes inferior à do adulto saudável, e é apenas equiparável à deste aos 5 anos de idade.

 

A capacidade de seguir um objecto, é outro exemplo. É detectável na maioria das crianças com 3 meses de idade, mas antes dessa idade poderá estar ausente sem constituir um alerta.

 

Já a percepção de profundidade e a função visual binocular só se desenvolvem entre o terceiro e o sétimo mês de idade. Esta característica é mais facilmente entendida se fecharmos ora um, ora outro olho. Ao fazermos este exercício apercebemo-nos que a imagem apesar de ser a mesma, está ligeiramente desviada ora para um, ora para outro lado. Esta disparidade deve-se à localização distinta de cada olho na nossa cabeça, e, traduz-se em duas projecções do mundo nas nossas retinas. Graças a ela o olho é capaz de transmitir ao cérebro a percepção de profundidade ou seja de tridimensionalidade, no entanto, a capacidade de entendermos como única e equivalente cada uma destas imagens fornecidas por cada olho, só surge como disse entre os 3 e 7 meses de idade.

 

Este desenvolvimento visual nas idade pediátricas, a constante adaptação e maturação da visão, traduz-se muitas vezes numa clínica pobre ou em sintomas discretos, porque raras são as crianças que se queixam de dificuldades visuais. Por isso é importante os pais estarem atentos às alterações visuais. A avaliação como disse é variável e nem sempre fácil de objectivar para um leigo; mas os pais devem perguntar-se se os seus filhos vêem bem? Se notam algum movimento anormal dos seus olhos? Se lhes parece que os seus filhos fazem um esforço acrescido para ver, semicerrando os olhos, por exemplo, ou aproximando em demasia os objectos com o intuito de os ver? Se existe estrabismo ou alguma lesão no olho, ou se as pálpebras caiem assimetricamente?

Em idade escolar, existem por vezes queixas de dores de cabeça após um dia de escola que poderão corresponder a uma miopia, uma diminuição da visão para o longe e ao esforço consequente de tentar ver o quadro da escola. O insucesso escolar mantido ou adquirido poderá traduzir dificuldades de visão que justificarão uma avaliação médica.

 

Se for o caso, e se considerar importante uma visita ao seu médico, perante alterações visuais não se esqueça de referir, se existentes, antecedentes de doenças oculares na história da família e antecedentes pessoais das doenças dos seus filhos e de prematuridade se for o caso.

 

Os seus olhos atentos nos olhos dos seus filhos poderão significar a detecção precoce e o tratamento imediato de certas alterações, que tratadas poderão evitar incapacidades ou défices futuros. Não hesite em expor as suas dúvidas ao seu médico assistente, nomeadamente nas Consultas de Saúde Infantil. O seu zelo enquanto pai ou mãe e a disponibilidade do seu médico, representam a conjugação ideal de esforços para garantir a melhor saúde visual dos seus filhos.

 

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